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Diz-se que em uma terra distante houve uma grande guerra entre os animais de uma antiga Floresta de Araucárias. Essa floresta era governado por um Leão, que como governante era obrigado a manter a paz entre todos os outros bichos e garantir que todos tivessem uma vida decente. Esse Leão era escolhido dentre outros leões pelos habitantes da floresta, e como forma de garantir que um leão jamais usasse a boa vontade e o trabalho dos outros animaispara beneficiar seu próprio bando, depois de um certo tempo ele deixava de governar a Floresta de Araucárias para ser substituído por outro.

Essa era a Lei,com letra maiúscula, maior e mais poderosa que qualquer leão que estivesse no poder, e que era igual para todas as florestas daquela Terra, por ser essa Lei que tornava todas aquelas florestas uma mesma Terra. A lei com letra minúscula, que devia ser submetida à Lei, poderia ser decidida pelos próprios habitantes da Floresta de Araucárias, mas não por todos os bichos, já que isso causaria uma bagunça danada, e assim sendo,  um grupo de raposas era escolhido para criar essas leis, e assim como os leões, as raposas eram trocadas de tempos em tempos.  Havia algo de engraçado nas raposas, porém: As velhas costumavam ser escolhidas por dizer que sempre comeram poucos animais, enquanto as jovens eram escolhidas ao dizer que comeriam poucos animais, e algumas até que eram vegetarianas. Pode parecer esquisito que os animais fossem escolher quem os comeria dessa forma, mas todos concordavam que leões eram ótimos governantes, raposas ótimas criadoras de lei, e todo mundo sabe que esses animais não sobrevivem de frutas, legumes e vegetais como os coelhos ou esquilos.

Do mesmo jeito que a água é molhada, o dia vem depois da noite e o sol nasce no leste e se deita no oeste, depois da primavera, verão e outono, onde os vegetais são abundantes e a caça é fácil, um dia chega o inverno. E era função do Leão e de seus empregados, sem ferir a Lei ou as leis, cuidar para que ninguém passasse fome durante a estação gelada. Para garantir a sobrevivência de todos de forma digna quando trabalhar se tornasse impossível, todo animal deveria doar um pouco de sua comida para todos, sob a guarda do governo, sendo então esperado que se um coelho arrumasse três pés de couve, deveria entregar um; se um coiote abatesse três perdizes, deveria entregar um, e assim por diante.

O problema é que por mais que leões sejam animais extremamente habilidosos, que sabem falar em público de forma que até o menor dos camundongos se sinta seguro, cuja juba lustrosa gera comentários à quilômetros de distância até animais que nunca os viram, e que costumam ter uma desenvoltura impar para conversar com as raposas, nem sempreeles são bons de matemática. E alguns leões tinham errado feio as contas, mesmo que só parecessem notar isso quando um Leão de um bando diferente se tornava o novo governante, e nisso, mais um inverno se aproximava e não haveria comida armazenada para todos.

O Leão daquele tempo, amado por quase todos os animais, entrou em pânico quando descobriu que nem a beleza de sua juba deixaria os animais felizes quando o inverno chegasse e eles não tivessem o que comer, e ele precisava de um plano urgentemente. E foi assim que junto com as raposas eventualmente chegou a uma solução perfeita para o problema: Por que não comer os animais mais velhos, que não conseguiam mais trabalhar? Corujas, por exemplo, dizem ficar uma delícia se preparadas direito, e se os animais mais velhos não conseguem mais trabalhar, pelo menos ele voltariam a ter alguma utilidade.

As corujas, como é de se esperar, não gostaram muito da ideia. Conhecidas por sua sabedoria e paciência, geralmente eram elas quem passavam aos animais novos as informações necessárias sobre aquela curiosa sociedade. Já foram escolhidas para essa função inclusive por terem facilidade em ficar acordadas a noite toda, apesar de ser tão cansativo para elas quanto para os demais, o que lhes permitia analisar cuidadosamente e avaliar cada um dos animaizinhos para garantir que chegariam a vida adulta capazes de ajudar a manter a paz, a ordem, e a serem produtivos. Depois de tanto esforço, de tanto cuidado, de passar tantas noites em claro enquanto os outros dormiam era assim que elas seriam agradecidas? Virando ração de emergência?  As corujas sabiam que não poderiam permitir.

As corujas então não só pararam de trabalhar, deixando milhares de filhotes sem ter com quem aprenderpara mostrar como eram importantes na Floresta de Araucárias, como foram todas até a clareira onde as raposas votam para tentar impedir que fossem legalmente devoradas. É importante notar aqui que a Lei permite isso. Não que se devore corujas, e sim que você não trabalhe como forma de exigir que seu esforço seja mais valorizado, permite que os animais se reúnam para expressar seus pensamentos e permite que se assista a votação das raposas, desde que não causem briga.

Mas quando você não quer virar refeição, as vezes é difícil não se exceder, e depois de uma tentativa especialmente complicada de se fazerem ouvir, uma Águia, responsável por fazer valer tanto a Lei quanto a lei, disse que as raposas iriam votar de qualquer jeito e que os lobos poderiam ser chamados para garantir a decisão sobre comer ou não as corujas mais velhas. E assim foi feito. Quando as corujas tentaram cercar a clareira e impedir que as raposas entrassem, foram surpreendidas por uma alcatéia de lobos que primeiro cercaram as raposas garantindo que chegassem até o local de deliberação, e depois cercaram o local para impedir que qualquer um que não fosse raposa entrasse.

Os gritos das corujas do lado de fora era ensurdecedor, mas as raposas estavam decididas pela sua lealdade ao Leão, e não aos animais que as elegeram, e muito menos a um bando de corujas velhas. A tensão foi subindo e subindo até que um grupo de pardais, uns passarinhos miseráveis, completamente fora da realidade, decidiram voar bem alto e atirar pedras na cabeça dos lobos, como forma de protesto contra as raposas, os próprios lobos, o Leão e tudo o que tá aí. E quando foram agredidos, os lobos receberam ordem para atacar, se atirando furiosamente em cima de quem imaginavam estar causando bagunça, ou seja, das corujas, que se até aquele momento só queriam ser ouvidas para que não virassem jantar depois de velhas, quase viraram jantar ali mesmo em volta da clareira. E isso definitivamente contrariava a Lei.

O alvoroço foi tão feio que a notícia chegou até as outras florestas daquela terra, fosse por meio de animais que assistiram tudo aquilo, seja por abutres de outras florestas, que sentindo o cheiro de sangue, espalharam alegremente que as corujas da Floresta de Araucárias tiveram o que mereceram, como forma de garantir que suas próprias corujas e outros animais ficassem bem quietinhos.No final, o Leão e as raposas conseguiram o que queriam. Os animais não os amam mais como antes, e algumas águias ainda não tem muita certeza se a lei está de acordo com a Lei, mas entre serem comidas agora ou depois, as corujas preferiram depois.

Ainda bem que no nosso mundo esse tipo de coisa não acontece, né?

Vinicius Ferreira Mendes

Escritor e Redator Publicitário Freelancer

 

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